Racismo e desigualdade social afetam aprendizagem de crianças desde a primeira infância, aponta estudo

Análise baseada em avaliação internacional da OCDE identificou diferenças de até 84 pontos no desempenho de crianças de 5 anos, considerando raça e condição socioeconômica

Luis Gustavo, Da Redação*


O racismo estrutural e as desigualdades socioeconômicas já interferem nas oportunidades de aprendizagem das crianças brasileiras antes mesmo do ingresso no ensino fundamental. É o que aponta uma análise da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, baseada nos resultados de uma avaliação internacional que identificou diferenças no desenvolvimento de crianças de 5 anos.

 

O levantamento utilizou dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A pesquisa avaliou crianças matriculadas na pré-escola em três áreas: aprendizagens fundamentais, funções executivas e habilidades socioemocionais.

 

Entre os resultados, uma das diferenças mais expressivas apareceu na chamada numeracia emergente, que envolve habilidades iniciais de matemática, como contar, comparar quantidades e reconhecer padrões.

 

Nesse indicador, crianças pretas alcançaram média de 423 pontos, enquanto crianças brancas registraram 463 pontos. Já entre as crianças pardas, a média foi de 447 pontos, evidenciando uma diferença de 40 pontos entre os grupos preto e branco.

 

Também foram identificadas diferenças na memória de trabalho, capacidade de armazenar e manipular informações. As crianças pretas obtiveram 462 pontos, as pardas 463 e as brancas 471.

Desigualdade aumenta quando renda é considerada

A análise aponta que as diferenças se tornam ainda maiores quando a raça ou cor é considerada em conjunto com a condição socioeconômica das famílias.

 

Na numeracia, a distância chegou a 84 pontos entre crianças pretas, pardas ou indígenas de famílias com baixo nível socioeconômico, que registraram 416 pontos, e crianças brancas ou amarelas de famílias com nível socioeconômico elevado, que alcançaram 500 pontos.

 

Em outras habilidades, como literacia, relacionada ao desenvolvimento da linguagem e à compreensão de narrativas, palavras e sons, a diferença entre os grupos chegou a 55 pontos.

 

O mesmo intervalo foi observado na memória de trabalho. Crianças do grupo com menor nível socioeconômico obtiveram 441 pontos, enquanto aquelas do grupo com melhores condições econômicas alcançaram 496 pontos.

 

Segundo a diretora de Políticas Públicas da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Marina Fragata Chicaro, características como raça, cor e condição econômica não determinam a capacidade de aprendizagem de uma criança. As diferenças estão relacionadas principalmente às condições de vida, ao acesso a direitos, à qualidade dos serviços e às oportunidades oferecidas desde os primeiros anos.

Políticas públicas são apontadas como caminho

O estudo destaca que as desigualdades identificadas na primeira infância podem se acumular ao longo da vida, ampliando diferenças nas trajetórias educacionais e nas oportunidades futuras.

 

Entre as medidas apontadas para enfrentar o problema estão o monitoramento dos indicadores de aprendizagem por raça e cor, a ampliação de políticas voltadas às crianças em situação de vulnerabilidade e o investimento na formação continuada de professores.

 

A análise também defende a ampliação das oportunidades de aprendizagem matemática por meio de brincadeiras e atividades integradas, além de maior articulação entre os setores de educação, saúde e assistência social.

 

O levantamento cita ainda políticas já existentes, como a Política Nacional Integrada da Primeira Infância, a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola e as diretrizes previstas no novo Plano Nacional de Educação.

 

A conclusão é que o enfrentamento das desigualdades precisa começar nos primeiros anos de vida, garantindo condições mais equilibradas de desenvolvimento e aprendizagem para todas as crianças. *Com informações da Agência Brasil.

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