O próprio irmão do presidente da República havia dito em alto e bom som que ele tinha conhecimento de um esquema de corrupção no governo que poderia causar a queda de Fernando Collor em menos de 72 horas. No entanto, era preciso provar.
A proposta veio rápido: a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a existência do esquema comandado pelo ex-tesoureiro da campanha presidencial, o empresário Paulo César Cavalcante Farias.
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Parecia fácil. No entanto, até a queda, foram necessários 118 dias de pressões que começaram ainda na escolha dos integrantes da CPI, passaram por depoimentos bombásticos, obtenção de provas, medos de fracasso e noites em claro.
O resultado foi a produção de um relatório que serviu de base legal para a aprovação de um inédito processo de impeachment contra o presidente da República, o primeiro que havia sido eleito pelo voto desde 1960.
O iG apurou que o texto final foi revisado por Antônio Houaiss (1915-1999), que, na época, ainda não havia lançado o seu famoso dicionário de Língua Portuguesa. Ele tinha uma sala na Secretaria de Processamento de Dados do Senado (Prodasen).
Relator daquela CPI, o então senador Amir Lando (PMDB-RO) chegou ao fim dos trabalhos desgastado, mentalmente e fisicamente. No dia da leitura do relatório, sentia sua garganta fechada e sua voz mais fraca. Pediu, então, um pouco de conhaque.
A encomenda veio num vidro usado de maionese. Um funcionário de confiança de Amir Lando foi até sua própria casa para pegar um pouco de conhaque da marca “Macieira”. A bebida foi servida numa xícara para que todos pensassem que fosse café.
“Eu aprendi isso com o Gilberto Gil. Conhaque é bom para abrir a garganta. Eu estava muito cansado aquele dia. Não havia dormido quase nada na noite anterior”, contou Lando ao iG. “Foram 90 dias de pressão”, completou.
O time da CPI
A pressão começou já na escolha dos 22 integrantes da CPI. Então aliado ao governo, o PDS (atual PP) cedeu uma de suas vagas para a oposição. Líder da bancada do Senado, o hoje deputado Espiridião Amim (SC) indicou José Paulo Bisol (PSB-RS) para a CPI.
A escolha foi decisiva para o resultado em favor das investigações. “Comuniquei ao meu partido que precisávamos fazer uma investigação correta. Ex-desembargador e juiz, Bisol era o nome adequado para trabalhar na CPI”, explica Amin, 20 anos depois ao iG.
O parlamentar catarinense conta que a indicação chegou a ser contestada no Supremo Tribunal Federal pelo então senador governista Amazonino Mendes, atual prefeito de Manaus. Na época, Mendes era líder do PDC, sigla aliada ao presidente Collor.
“Recebi muitos telefonemas. Um deles foi do Paulo Maluf. Eu disse a ele que meu gesto dava força ao partido. Ele era candidato a prefeito de São Paulo e acabou usando a presença do Bisol na CPI a seu favor durante a eleição, da qual saiu vencedor”, conta Amin.
Elba e cheques fantasma
Apesar da entrevista bombástica de Pedro Collor, o ponto fundamental para o avanço das investigações na CPI foi a descoberta do Fiat Elba, pago com um cheque fantasma do esquema PC. O automóvel era dirigido por Eriberto França, motorista do presidente.
E o caso foi apurado, justamente, por uma subcomissão coordenada pelo senador José Paulo Bisol – que entrou na CPI por indicação do governista PDS. Depois de conceder entrevista a IstoÉ, Eriberto foi ouvido na comissão onde contou ter comprado a Elba do presidente.
Ao começar a depor na CPI, França foi interpelado pelo principal deputado governista na época, Roberto Jefferson (PTB-RJ), que questionou se ele estava fazendo tudo aquilo por patriotismo. França respondeu de imediato: “E o senhor acha pouco?”. A frase marcou a CPI.
As declarações de França ajudaram a CPI a comprovar que o esquema PC, que utilizava cheques fantamas, pagava as contas do presidente da República e de seus familiares. “Foi o grande indício que mostrava a ligação de PC com Collor”, avalia Amin.
Bastidores da queda
Com o círculo se fechando na CPI, tiveram início as articulações para a votação do impeachment e a preparação para o vice-presidente Itamar Franco assumir o comando do País. Ex-presidente da República, José Sarney (PMDB-AP) teve papel fundamental.
Durante a campanha de 1989, Sarney foi o principal alvo de Collor, que o acusava de ser corrupto. Três anos depois, o jogo mudava de lado. Foi Sarney, por exemplo, que apresentou Itamar ao presidente da Rede Globo, Roberto Marinho.
No Congresso, a filha de Sarney, Roseana, ajudou a angariar votos para o impeachment semanas antes da votação. O presidente Collor ainda tentou reverter o jogo. Convocou no seu gabinete deputados governistas que já havia anunciado voto favorável ao impedimento.
A votação de impeachment
O então deputado federal Paulo Romano foi um dos parlamentares procurados por Collor. Filiado ao então PFL de Minas Gerais, Romano havia sido um dos primeiros governistas a declarar publicamente que votaria a favor do impeachment.
“O PFL era o maior partido que apoiava o governo. E os prefeitos me diziam que o dinheiro só era liberado se não deixasse participação. Vi que aquilo que se chamava esquema PC era uma coisa real. Era como se fosse um governo dentro de um governo”, diz Romano.
Dois meses antes da votação do impeachment, Romano contou que convocou uma entrevista coletiva na Assembleia Legislativa de Minas Gerais para anunciar o voto contra Collor. Três semanas antes da votação, ele foi chamado para uma conversa no Palácio do Planalto.
“O Lafaiete Coutinho (então presidente do Banco do Brasil) foi quem me perguntou se eu topava falar com o presidente”, diz Romano. “Collor me falou: você não vê que é um movimento político, não está vendo as bandeiras vermelhas?”

A conversa foi tensa, durou uma hora, mas não teve efeito. Restou uma ironia do destino: Paulo Romano acabou sendo o voto 336, o número mínimo necessário para a abertura de processo de impeachment.
“Saí lá de trás do plenário para votar”, conta hoje, 20 anos depois, Romano, que é secretário-adjunto de Agricultura do Estado de Minas Gerais. Ele nunca mais teve um mandato. “Não é meu perfil”, finalizou.
iG
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