PF diz que Vorcaro mandou R$ 350 mil dentro de sacola para Ciro Nogueira em voo particular

Mensagens de Daniel Vorcaro, plano de voo e depoimento de piloto embasam suspeita de repasse em dinheiro vivo ao senador

Por R7


A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master identificou indícios de que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro determinou a entrega de R$ 350 mil em dinheiro em espécie ao senador Ciro Nogueira (PP-PI). Segundo os investigadores, o valor foi transportado dentro de uma sacola em uma aeronave particular que decolou de São Paulo com destino a Brasília.

As informações constam de relatórios que tiveram o sigilo retirado nessa terça-feira (16) pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça. Para a Polícia Federal, o episódio reúne um conjunto de evidências que reforça a suspeita de corrupção envolvendo o ex-banqueiro e o parlamentar.

Segundo a Polícia Federal, o episódio começou em 6 de agosto de 2024, quando Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pela investigação como operador financeiro do empresário, encaminhou ao banqueiro uma lista de pagamentos pendentes.

Entre os compromissos aparecia a anotação “Espécie Ciro 350k”, referência que, segundo a PF, indicava um pagamento de R$ 350 mil em dinheiro vivo destinado ao senador.

Nas mensagens analisadas, Vorcaro não questiona o pagamento em espécie. Pelo contrário, responde que o dinheiro estava “indo parte” e determina que a pendência seja resolvida, escrevendo: “resolve ciro” e “Paga 7,5 e ciro”.

O "R7" tenta contato com as defesas de Vorcaro e Ciro. O espaço segue aberto para manifestação. No mês passado, quando foi alvo de mandados de busca e apreensão por causa da relação com o ex-banqueiro, o senador disse estar com a consciência tranquila.

“Acusações, todos os políticos em algum grau já sofreram, ainda mais o presidente de um grande partido, com muita influência, como é meu caso. Não serei o primeiro nem o último. Agora, comprovar é outra história”, afirmou o senador à época.

Sacola levada em avião

Ainda segundo a investigação, no mesmo dia foi realizado um voo que saiu de São Paulo com destino a Brasília, fazendo escala no Rio de Janeiro.

O piloto Mauro Caputti Mattosinho afirmou em depoimento que transportava uma sacola que, segundo sua percepção, possivelmente continha dinheiro em espécie.

Durante o voo, de acordo com o relato prestado aos investigadores, um dos passageiros — o empresário Roberto Leme, conhecido como “Beto Louco” e investigado em outro esquema de corrupção — mencionou repetidamente o nome do senador.

Segundo o piloto, o empresário perguntava diversas vezes se “estava tudo certo com o Ciro” e se “o Ciro já estava os aguardando”, afirmações consideradas relevantes pela Polícia Federal para reconstruir a dinâmica da entrega.

Relação de proximidade

Os relatórios da PF descrevem uma relação de forte proximidade pessoal entre Vorcaro e Ciro, marcada por viagens internacionais, encontros privados, conversas frequentes, voos em jatinhos particulares e demonstrações públicas e privadas de amizade. Segundo os investigadores, porém, a intimidade não era apenas pessoal, mas fazia parte de uma relação estruturada de troca de vantagens.

Entre as provas reunidas estão fotografias que mostram Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro juntos em viagens ao exterior, registros dentro de aeronaves particulares e conversas extraídas de aparelhos eletrônicos apreendidos durante a investigação.

A Polícia Federal afirma que a amizade entre o senador e o banqueiro “transcende a mera relação pessoal, revelando-se, na verdade, uma relação funcional e instrumental, estruturada a partir da convergência de interesses ilícitos e orientada pelo benefício mútuo extraído por cada um dos envolvidos”.

Para a corporação, a relação entre os dois se caracteriza como um “típico mutualismo ilícito”. Na avaliação da corporação, a relação de afeto era consequência da convergência de interesses entre ambos.

Nas mensagens, os dois utilizam expressões como “saudades”, “meu amigo”, “quero lhe ver” e “irmãozão”. Em conversa com sua então namorada, Martha Graeff, Vorcaro afirma que desejava apresentá-la ao senador, descrevendo-o como “muito amigo meu” e “um dos meus grandes amigos de vida”.

Luxo, viagens e repasses

A Polícia Federal afirma ter encontrado evidências de que Vorcaro financiava uma série de benefícios destinados ao senador.

Os investigadores apontam que o banqueiro custeava viagens internacionais em aeronaves particulares, hospedagens em hotéis de luxo e despesas pessoais de Ciro Nogueira e de sua companheira, Flávia Rosalen.

Entre os gastos listados estão:

Uma hospedagem em uma suíte em Nova York, no valor de US$ 47.779,80;

  • Viagens para Courchevel, nos Alpes Franceses, com estadias em hotéis cinco estrelas e refeições em restaurantes renomados;
  • Despesas em Paris, incluindo uma conta de US$ 1.981,12 em um restaurante;
  • Além de aproximadamente R$ 91 mil em gastos durante uma viagem a Portugal.

Os relatórios também registram que Ciro utilizou, ao menos três vezes, aeronaves particulares pertencentes a Vorcaro em voos internacionais.

Além das viagens, a PF afirma que o senador usufruía de um apartamento pertencente ao empresário como se fosse seu imóvel.

Cobertura do Jornal da Nova

Quer ficar por dentro das principais notícias de Nova Andradina, região do Brasil e do mundo? Siga o Jornal da Nova nas redes sociais. Estamos no Twitter, no Facebook, no Instagram, Threads e no YouTube. Acompanhe!


Comentários